Para essa atividade, que abre o segundo semestre deste ano, a Diretoria levou ao Conselho uma proposta bastante simples: que todos escrevêssemos um pequeno texto a partir de uma mesma pergunta. Pareceu-nos uma boa maneira de orientar — e, sobretudo, de animar — esta Conversação. O Conselho aceitou prontamente a proposta. Vejamos, então, o que ela vai render aqui hoje.
A pergunta era: o que da clínica é transmissível?
Essa pergunta não surgiu por acaso. Ela se inscreve no percurso de trabalho deste biênio, ao longo do qual convidamos cada participante a apresentar uma articulação com a clínica — seja a partir de sua própria prática, seja de um caso clínico. Desde o início, fomos orientados por uma questão presente no argumento que acompanhou esse trabalho: como o conceito orienta a clínica? E, em contrapartida, como a clínica transforma o próprio conceito?
Lacan, especialmente em A Terceira[1], desloca a noção de clínica: ela deixa de designar um conjunto de observações sobre os fenômenos psíquicos, ou o lugar de aplicação de uma teoria. A teoria orienta, mas é a clínica que continuamente a desacomoda. É justamente desse paradoxo entre teoria e clínica que emerge a questão da transmissão.
Ao comentar o congresso que discutiria o futuro da Escola Freudiana de Paris, Miller lembra que Lacan prefere a palavra transmissão à palavra tradição[2]. A tradição conserva um patrimônio; a transmissão mantém uma experiência viva. Ela não se sustenta na repetição, mas na capacidade de cada geração recolocar em trabalho aquilo que recebeu.
Se a transmissão da clínica não consiste em fazer passar um conjunto de conceitos ou de procedimentos, o que, então, se transmite?
O texto de Anne Lysy, Quais palavras, qual corpo?[3], oferece uma via interessante para abordar essa pergunta. Ao interrogar a interpretação a partir do último ensino de Lacan, ela desloca o foco do conteúdo da interpretação para seus efeitos. O que faz com que uma intervenção tenha ressonância, enquanto outra permanece apenas como informação ou produção de sentido? Ou, retomando Lacan, o que faz com que certas palavras “tenham alcance”?
A transmissão não se realiza simplesmente porque um saber foi exposto. Ela só acontece quando encontra, naquele que escuta, um ponto de ressonância capaz de colocar seu próprio trabalho em movimento. Nesse sentido, a transmissão guarda uma afinidade estrutural com a interpretação: ambas dependem menos da comunicação de um conteúdo do que da produção de um efeito. Uma transmissão acontece quando modifica a maneira de escutar, de ler um sintoma, de dirigir um tratamento. O que se transmite não é uma interpretação exemplar nem um repertório de boas intervenções. Transmite-se uma orientação clínica.
Nesse sentido, transmitir a clínica é transmitir uma relação com o impossível: uma disposição para sustentar o não sabido até que algo do real possa encontrar uma forma de se escrever. É por isso que um caso clínico nunca interessa porque ilustra uma teoria. Se fosse esse seu destino, bastaria reconhecermos nele conceitos já conhecidos. Um caso transmite quando nos obriga a trabalhar. Quando faz aparecer um impasse. Quando revela um ponto em que o saber vacila e exige do analista uma invenção. O que passa de um analista a outro não é a reprodução de uma interpretação, mas o percurso que permitiu construí-la. Não se transmite uma solução; transmite-se um modo de trabalho.
Essa perspectiva encontra um desenvolvimento importante em Éric Laurent[4], para quem o sintoma não é apenas aquilo que escapa às classificações. No último ensino de Lacan, o sintoma torna- se um operador de dissolução dos “para todos”. Ele rompe a lógica classificatória porque introduz aquilo que nenhuma categoria consegue absorver: a singularidade de um modo de gozo. É precisamente nesse ponto que a clínica psicanalítica conserva sua força.
Transmitir a clínica é transmitir essa orientação. O conceito orienta; o sintoma decide. Essa perspectiva adquire hoje uma importância ainda maior. Vivemos um tempo em que se multiplicam protocolos, classificações e respostas rápidas para o sofrimento psíquico. Quanto mais o discurso contemporâneo promete eliminar a contingência e padronizar as soluções, mais a psicanálise é convocada a sustentar o valor do singular. Transmitir a clínica é, também, sustentar essa posição ética e política: afirmar que existe um saber que não antecede a experiência, mas que se produz nela — um saber inseparável da transferência, que encontra no sintoma não um erro a corrigir, mas uma via de acesso ao modo de gozo de cada sujeito.
“Como transmitir o que, na clínica, escapa a todo ‘para todos’?”
[1] LACAN, J. A terceira. Rio de Janeiro: Zahar Ed., 2022, pp. 11-60.
[2] MILLER, J.A. Lacan foresaw the global domination of capitalism. https://www.amp-nls.org/nls-messager/jacques-alain- miller-lacan-foresaw-the-global-domination-of-capitalism/ Acessado em 22.07.2026.
[3] 3LYSY,A. Quels mots, quel corps? D’autres textes d’orientation. Vers le Congrès 2020 de la NLS https://nlscongress2020.amp-nls.org/nlscongrs/dautres-textes-dorientation?utm_source=chatgpt.com Acessado em 22.07.2026.
[4] LAURENT, É. L’interprétation: de la vérité à l’événement. Textes d’orientation. Vers le Congrès 2020 de la NLS. https://nlscongress2020.amp-nls.org/nlscongrs/le-texte-dorientation?utm_source=chatgpt.com Acessado em 22-07-2026.